O Papa do diálogo

João Paulo II sempre foi capaz de definir etapas mobilizadoras da Igreja e do mundo, na busca de uma identidade forte — visível na devoção mariana e na formulação de um todo doutrinal — que fosse capaz de sustentar o diálogo com outras confissões religiosas.

A sensibilidade para as implicações na sociedade da ação da Igreja não inviabilizou que o pontificado tivesse dado prioridade à ação pastoral, mesmo sem colocar a política em segundo plano. A ideia, explícita logo desde a primeira encíclica, foi centralizar novamente a mensagem cristã em Jesus, que revela ao homem o seu destino e a sua dignidade.

A Redemptor hominis de João Paulo II revelou-o atento à necessidade não só do diálogo ecumênico com todas as igrejas cristãs, mas também com todas as religiões. Em seu pontificado houve uma grande novidade: o Papa soube que o mundo não se tornaria completamente cristão ou católico, soube que era necessário viver com os demais, sejam judeus, muçulmanos ou ateus, e isso foi radicalmente novo na concepção da Igreja. Essa novidade representa um ponto fundamental em seu pontificado, a consciência de que a experiência católica tem de conviver com outras e é pela qualidade desse convívio que ela pode evangelizar.

Muitos falam de um “Papa político”, alguém que lutou abertamente contra os regimes comunistas do Leste Europeu desde a sua primeira viagem à Polônia em 1979 e contra o capitalismo reinante na sociedade ocidental. A Igreja é desafiada a resistir, anunciar e mudar: os apelos do Papa em favor do Terceiro Mundo são mais bem entendidos à luz dessas premissas.

As profundas transformações ocorridas na Europa no final do segundo milênio e no início do terceiro têm em João Paulo II um dos principais protagonistas. No começo do pontificado de João Paulo II, a Europa, pelo Tratado de Ialta, continuava dividida em dois blocos por motivos ideológicos e geopolíticos. Começava a surgir, à época, o Sindicado Solidariedade, que ameaçava provocar instabilidade não só no interior da Polônia, mas também em outros países do Leste Europeu.

O Papa apoiou e estimulou a normalização de relações com o Leste Europeu comunista, conduzida pelo seu secretário de Estado, o Cardeal Agostinho Casaroli, e continuada pelo seu sucessor, o Cardeal Angelo Sodano. O processo culminou, no período do presidente Gorbachev, em março de 1990, com o restabelecimento das relações oficiais entre o Vaticano e a ex-União Soviética.

João Paulo II foi um ardoroso defensor da “Grande Europa”, que se estenderia do Atlântico aos Urais. A “Grande Europa”, segundo ele, deveria respirar com os dois pulmões, alimentar-se com a riqueza das duas tradições: a cristã-ocidental e a eslavo-ortodoxa.

Com o final da Guerra Fria, os medos da humanidade viraram-se para a guerra das civilizações, confrontos com motivações religiosas entre o mundo árabe e o Ocidente. O papel de João Paulo II voltou a ser fundamental. Condenou o terrorismo e o ataque ao World Trade Center ocorrido em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. A campanha contra a guerra no Iraque, em 2003, foi o ato que simbolicamente congregou as iniciativas e apelos de paz de João Paulo II desde que foi eleito Papa, nascidos da convicção de que o respeito pelos direitos humanos é o único caminho para os povos.

Igualmente firmes foram as posições do Papa sobre os temas do matrimônio, da família, da defesa da vida desde a sua concepção até ao momento da morte natural ou da moral sexual. Essas ações apresentaram João Paulo II como uma consciência crítica, em referência constante ao Evangelho.

João Paulo II criticou fortemente a aproximação da Igreja com o marxismo nos países em desenvolvimento e em especial a Teologia da Libertação. “Não é possível compreender o homem a partir de uma visão econômica unilateral, e nem mesmo poderá ser definido de acordo com a divisão de classes”, disse aos Bispos brasileiros em 26 de novembro de 2002. Durante a sua visita a Cuba, em janeiro de 1998, que marcou o fim de 39 anos de relações tensas entre a Igreja Católica e o regime de Fidel Castro, condenou o embargo econômico dos EUA ao país. Em 2003, por intermédio do cardeal Angelo Sodano, enviou uma carta ao presidente Fidel Castro criticando “as duras penas impostas a numerosos cidadãos cubanos e, também as condenações à pena capital”.

Em relação ao Concílio Vaticano II, no qual João Paulo II participou, ele tentou ativamente continuar as reformas e as ideias saídas desse concílio, nomeadamente sobre o ecumenismo e sobre a abertura da Igreja ao mundo moderno.

Diálogo inter-religioso

Promotor de uma aproximação com outras grandes religiões monoteístas do mundo, João Paulo II enfrentou, no entanto, acusações de “proselitismo agressivo” feitas pelo mundo ortodoxo. A reconciliação com os judeus marcou a sua viagem à Terra Santa em março de 2000 e uma mudança nas relações entre as duas religiões.

Motivou o diálogo inter-religioso, o ecumenismo e a cultura da paz, sendo o primeiro Sumo Pontífice a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, em 26 de março de 2000, onde pediu perdão pelos erros e crimes cometidos pelos filhos da Igreja no passado. Foi o primeiro a pregar numa sinagoga, a entrar numa mesquita, (em Damasco, na Síria) e a promover jornadas ecumênicas de reflexão pela paz em Assis (Oração Mundial pela Paz). Fez a primeira visita de um Sumo Pontífice católico à Grécia desde a separação das Igrejas Católica e Ortodoxa no cisma de 1054.

João Paulo II e os jovens

Foi grande incentivador do Movimento Escoteiro, visitando eventos mundiais e europeus da maior organização juvenil do mundo. Deu início aos encontros internacionais com os jovens, denominados Jornadas Mundiais da Juventude.

Diplomacia

A mediação pontifícia de João Paulo II permitiu que o Chile e a Argentina chegassem a um acordo no conflito sobre os seus limites territoriais na região austral (Canal de Beagle) que ameaçava levar os dois países à guerra. Em 22 de dezembro de 1978, o Papa enviou o Cardeal italiano Antonio Samorè aos governos dos dois países como emissário pessoal, o que levou à assinatura dos Acordos de Montevidéu, no Palácio Taranco, a 18 de Janeiro de 1979, pelo qual os dois Estados recorreram formalmente à mediação do Papa e à assinatura do Tratado de Paz e Amizade, assinado diante do Papa, na Capela Paulina (Vaticano), no dia 29 de novembro de 1984.


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